eram cerca de onze da noite, e nada havia sido como eu fantasiara. na mochila eu não tinha mentiras pra contar, e não usava um jeans rasgado. pelo caminho não haviam garrafas nem cigarros (só uns poucos sobrados das noites anteriores). não. entre a carne e o tecido eu sentia minha pele angustiando em hematomas recém feitos, e não carregava comigo mais que uma blusa extra e chamadas intercaladas por trinta minutos. meus dedos tocavam gentilmente a corrente do balanço onde agora eu voava. fitei o teto preto e carregado de estrelas. como te queria aqui agora, alice. como te queria comigo, no céu. te quero tanto, mas tanto, que...
de um salto rompi meu vôo e me atirei ao chão de areia. não havia tempo a perder, eu não tinha nada e vivia tudo. acendi um dos poucos cigarros que me restavam e segui os paralelepípedos até o asfalto. pouco mais de uma hora andando e finalmente cheguei ao trevo da cidade. ah, a cidade. como é bom te abandonar sem medo.
os faróis me banhavam em luz me cegando por segundos, me ignorando. depois de quarenta ou cinqüenta minutos, um caminhão parou. corri e parei em frente à janela lateral, sorrindo. o motorista abriu a porta e me estendeu a mão. entrei. ele tinha mãos ásperas e um sorriso que de tão simples mais me parecia um pobre-coitado. como eu. eu esperava de motoristas de caminhão que dão caronas de madrugada: a)violência; b)estupro; c)eu jogada na estrada; mas não. ele ia pra cidade vizinha de onde eu pretendia chegar, e em pouco tempo de conversa me senti à vontade pra dormir um pouco. quando acordei os outdoors já me violentavam os olhos: chegamos.
[...]
liguei uma, duas, três vezes. o morse: ela me liga.
-onde tu tá? fiquei preocupada, tu não me ligou! tudo bem?
eu contenho risos abafados e não respondo.
-stella! stella! tá aí?
-vai pra sacada e olha que lindo ta o céu hoje. – ela responde com um suspiro. ouço o ranger de portas do outro lado da linha, acima da minha cabeça.
-sim, tá lindo mesmo.
-não mente, tu sequer saiu pra fora. – ela ri.
– tu me conheces tão bem.
-sim, e faço tudo por ti. – ela está debruçada nas grades de ferro me olhando a dois metros abaixo. eu faço sinal de silêncio e subo pelo muro do vizinho até a sacada. alice não tem mais medo, alice me ama e também faz tudo por mim.
-nós vamos fugir? – ela me beija e nossos corpos (o meu frio, o dela quente) se enlaçam.
-sim, meu amor. nós vamos fugir.
lá estava eu de volta ao asfalto, eram quase quatro da manhã. alice tentava se manter acordada na beira da estrada fumando cigarros que pendiam leves de seus dedos quando ela cochilava, relapsa. eu olhava e sorria. nunca antes havíamos sido mais felizes.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
segunda-feira, 16 de março de 2009
peeping tom
para se ler ouvindo: frosti – björk.
eu tinha nas mãos o encarte de um dos discos da banda preferida dela. uma só foto dobrada ao meio eram capa&contra-capa. o fundo preto e uma estrutura metálica em destaque. prata ou dourada talvez branca ou da cor para a qual ainda não fiz um nome. não tenho certeza. encarei por alguns segundos querendo saber o que era sem a pretensão de perguntar – ela ia dizer sem que eu o fizesse.
-é uma caixinha de música. – como eu previ, ela se entrega. – por dentro, sabe?
-não. nunca tive uma.- soaria pateticamente dramático se fossem outros ouvidos que não os dela, mas eram e não me detive em (me) explicar.
-é o que a faz funcionar. na verdade é bem pequeno, assim ó. – e mostrou com os dedos um protótipo imaginário que caberia na palma da minha mão. – esse rolinho fica girando, os pontinhos escuros são em alto-relevo. as fitinhas de metal fazem as notas, e quando os pontinhos passam, elas levantam, batem e aí faz soar o som.
continuei olhando a foto enquanto a voz dela se derretia nos meus ouvidos, derramando-se em mim. ela apontava os detalhes sem alcançar o papel, mais que debruçada nas laterais da cama. mantive minha atenção acorrentada a tudo que ela dizia, mas já não tenho certeza se foi bem isso. me flagrei absorta nas fitinhas de metal que batiam dentro dela, soando notas que banhavam meus olhos. sim, os olhos. e os senti muito, muito quentes. te injeto em mim ao som de uma pequena caixinha de música, meu amor, mas a velocidade com que tu corre por minhas veias é digna da nona sinfonia de beethoven.
eu tinha nas mãos o encarte de um dos discos da banda preferida dela. uma só foto dobrada ao meio eram capa&contra-capa. o fundo preto e uma estrutura metálica em destaque. prata ou dourada talvez branca ou da cor para a qual ainda não fiz um nome. não tenho certeza. encarei por alguns segundos querendo saber o que era sem a pretensão de perguntar – ela ia dizer sem que eu o fizesse.
-é uma caixinha de música. – como eu previ, ela se entrega. – por dentro, sabe?
-não. nunca tive uma.- soaria pateticamente dramático se fossem outros ouvidos que não os dela, mas eram e não me detive em (me) explicar.
-é o que a faz funcionar. na verdade é bem pequeno, assim ó. – e mostrou com os dedos um protótipo imaginário que caberia na palma da minha mão. – esse rolinho fica girando, os pontinhos escuros são em alto-relevo. as fitinhas de metal fazem as notas, e quando os pontinhos passam, elas levantam, batem e aí faz soar o som.
continuei olhando a foto enquanto a voz dela se derretia nos meus ouvidos, derramando-se em mim. ela apontava os detalhes sem alcançar o papel, mais que debruçada nas laterais da cama. mantive minha atenção acorrentada a tudo que ela dizia, mas já não tenho certeza se foi bem isso. me flagrei absorta nas fitinhas de metal que batiam dentro dela, soando notas que banhavam meus olhos. sim, os olhos. e os senti muito, muito quentes. te injeto em mim ao som de uma pequena caixinha de música, meu amor, mas a velocidade com que tu corre por minhas veias é digna da nona sinfonia de beethoven.

terça-feira, 10 de março de 2009
she's lost control.
pra se ler ouvindo joy division.
o antes: havia cortes mal e porcamente cicatrizados contornando e preenchendo o ante-braço numa perfeita e sincronizada simetria. se um dia orgulhara-se de carregá-los como troféus de demônios encarcerados, agora temia cada um deles, todos arrebentando as portas de suas jaulas – ora em coices e pontapés, ora arremessando o corpo todo contra as paredes. stella tornara-se o palco da própria ira.
o durante:
"alice,
escrevo a fim de me desculpar. já falamos sobre quão superficiais são as desculpas; já falamos sobre não o serem quando há sentido e faz-se valer do mesmo; já falamos que na maioria das vezes não têm propósito e prometemo-nos abstê-las; mas, ainda que não valham de nada agora – como em tantas outras – eu te peço desculpas. as mais sinceras que já me puderam sair da boca – agora da ponta da caneta.
entre a falsa modéstia de te dizer que tudo ficará bem e que um dia tu acharás outra que te ame tanto quanto eu amo e a presunção de afirmar o caos que se segue com a mais crua verdade de que nunca qualquer outro alguém poderá sequer tentar dar-te amor tal grande o meu, fico com a segunda opção. sei o quanto essa carta e os fatos que a acompanharão irão te dilacerar, e é por eles que me desculpo. por ter o teor de egoísmo concentrado demais, meu amor. aliás, seja lá egoísmo, covardia ou fracasso em excesso – talvez os três e mais – é por eles que me desculpo.
não tenho a pretensão de machucar-te ainda que sabendo ser inevitável. nessas linhas te mato um pouco a cada palavra, e admito, sequer pra isso fechei os olhos. como sempre, mantive-os bem abertos. tão abertos que não suportei o que tenho visto. usando das palavras que um dia tu me destes, ‘lavo meus olhos com clorofórmio’, todos os dias, meu amor, e as mãos que me afogam não são minhas – tampouco tuas, não te desespera.
a bem da verdade não tenho argumentos que o valham salvo que não suporto mais. não espero que me entenda – mesmo sabendo que o vai – ou que perdoe.
é minha deixa para o último suspiro, meu coração. obrigada por me ter apresentado o mundo fora das coxias, foi o melhor espetáculo que poderíamos ter vivido. te amo, e, como prometido, vou te amar sempre.
beijos incandescentes pra esse inverno,
stella – sempre tua.”
examinava o canivete vermelho-vivo entre os dedos finos. deixou de lado a dramatização literária que sempre a deixava abater e navalhou os braços sem pôr chamadas em espera. dos pulsos até a metade dos ante-braços, seguindo a linha azul que berrava através da pele. achava engraçado que depois de tantos rasgos em tantos anos no mesmo sentido, os últimos fossem exatamente os que fugiam do padrão. foi aí que a pele vomitou. vermelho. vermelho-vivo. entre papéis, trilhos e cigarros, stella saíra de cena.
o depois:
"...entrevista inédita com alice d. hoje, às 20:00. não perca! escritora fala do novo best-seller que encabeça a lista de mais vendidos há dezoito meses ininterruptos e revela o segredo de seu sucesso..."
-segredo do sucesso, é? – ironizou aquela com cabelos azuis desregrados.
-ah, sabe como é, dê uma frase qualquer à toda essa gente ignorante e logo transformam na sensação do momento. um circo sensacionalista, é isso que é, no qual EU sou a atração. pessoas são mesmo só pessoas.
-tu achas que a stella tem visto o que tem acontecido contigo? não tem como não saber, a imprensa toda tá a teus pés.
-e como eu saberia? da noite para o dia ela desapareceu! sequer escreveu dando explicações – não que eu precisasse – ou telefonou ou... tu sabes a história, e já chega desse assunto.
-tu não achas estranho que ela não a tenha procurado? afinal de contas, é a história de vocês, e, bem, milhões de pessoas têm lido. às vezes penso que talvez ten...
-já disse que chega desse assunto.
enquanto isso, o corpo de stella apodrece numa certa estação de trem abandonada.
o antes: havia cortes mal e porcamente cicatrizados contornando e preenchendo o ante-braço numa perfeita e sincronizada simetria. se um dia orgulhara-se de carregá-los como troféus de demônios encarcerados, agora temia cada um deles, todos arrebentando as portas de suas jaulas – ora em coices e pontapés, ora arremessando o corpo todo contra as paredes. stella tornara-se o palco da própria ira.
o durante:
"alice,
escrevo a fim de me desculpar. já falamos sobre quão superficiais são as desculpas; já falamos sobre não o serem quando há sentido e faz-se valer do mesmo; já falamos que na maioria das vezes não têm propósito e prometemo-nos abstê-las; mas, ainda que não valham de nada agora – como em tantas outras – eu te peço desculpas. as mais sinceras que já me puderam sair da boca – agora da ponta da caneta.
entre a falsa modéstia de te dizer que tudo ficará bem e que um dia tu acharás outra que te ame tanto quanto eu amo e a presunção de afirmar o caos que se segue com a mais crua verdade de que nunca qualquer outro alguém poderá sequer tentar dar-te amor tal grande o meu, fico com a segunda opção. sei o quanto essa carta e os fatos que a acompanharão irão te dilacerar, e é por eles que me desculpo. por ter o teor de egoísmo concentrado demais, meu amor. aliás, seja lá egoísmo, covardia ou fracasso em excesso – talvez os três e mais – é por eles que me desculpo.
não tenho a pretensão de machucar-te ainda que sabendo ser inevitável. nessas linhas te mato um pouco a cada palavra, e admito, sequer pra isso fechei os olhos. como sempre, mantive-os bem abertos. tão abertos que não suportei o que tenho visto. usando das palavras que um dia tu me destes, ‘lavo meus olhos com clorofórmio’, todos os dias, meu amor, e as mãos que me afogam não são minhas – tampouco tuas, não te desespera.
a bem da verdade não tenho argumentos que o valham salvo que não suporto mais. não espero que me entenda – mesmo sabendo que o vai – ou que perdoe.
é minha deixa para o último suspiro, meu coração. obrigada por me ter apresentado o mundo fora das coxias, foi o melhor espetáculo que poderíamos ter vivido. te amo, e, como prometido, vou te amar sempre.
beijos incandescentes pra esse inverno,
stella – sempre tua.”
examinava o canivete vermelho-vivo entre os dedos finos. deixou de lado a dramatização literária que sempre a deixava abater e navalhou os braços sem pôr chamadas em espera. dos pulsos até a metade dos ante-braços, seguindo a linha azul que berrava através da pele. achava engraçado que depois de tantos rasgos em tantos anos no mesmo sentido, os últimos fossem exatamente os que fugiam do padrão. foi aí que a pele vomitou. vermelho. vermelho-vivo. entre papéis, trilhos e cigarros, stella saíra de cena.
o depois:
"...entrevista inédita com alice d. hoje, às 20:00. não perca! escritora fala do novo best-seller que encabeça a lista de mais vendidos há dezoito meses ininterruptos e revela o segredo de seu sucesso..."
-segredo do sucesso, é? – ironizou aquela com cabelos azuis desregrados.
-ah, sabe como é, dê uma frase qualquer à toda essa gente ignorante e logo transformam na sensação do momento. um circo sensacionalista, é isso que é, no qual EU sou a atração. pessoas são mesmo só pessoas.
-tu achas que a stella tem visto o que tem acontecido contigo? não tem como não saber, a imprensa toda tá a teus pés.
-e como eu saberia? da noite para o dia ela desapareceu! sequer escreveu dando explicações – não que eu precisasse – ou telefonou ou... tu sabes a história, e já chega desse assunto.
-tu não achas estranho que ela não a tenha procurado? afinal de contas, é a história de vocês, e, bem, milhões de pessoas têm lido. às vezes penso que talvez ten...
-já disse que chega desse assunto.
enquanto isso, o corpo de stella apodrece numa certa estação de trem abandonada.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
sob seus pés o céu também rachou
há alguns meses atrás, enquanto eu lamuriava a falta tua, tu me destes uma estrela do céu. me dissestes 'olhe para o céu e procure a estrela mais brilhante. vês? pois é um presente meu pra ti'. e assim eu me sentia mais perto, sempre que o via com tantas gotículas brilhantes ao redor da nossa, fervendo lá em cima, ameaçando desabar a qualquer segundo. não suficiente, ontem mais uma vez tu me destes estrelas. dessa vez uma constelação inteira, as quais eu pude tocar com as mãos nas tuas. uma constelação que agitava-se sob nossos pés, mudando de lugar quase sem o acompanhar dos nossos olhos. fiquei eufórica, meu amor, eu extasiava por dentro e me alagava inteira. meu coração tinha explodido.
creio que tu querias me devastar em felicidade, pois como se não bastasse, tu me destes a lua no estado mais lindo que eu já pudera ter visto. te retribuí com meus mascotes que alimento lá dentro desde muito pequena. tudo que sempre quiséramos dividir com alguém que o merecesse, pequena, e agora o temos. tu me tens, eu te tenho. e até o que nem pensávamos que pudéssemos ter, nos demos: o campo dos sonhos estourando, não cabendo em si por toda aquela multidão que éramos nós duas, a escuridão, as estrelas de cima, as estrelas debaixo, os mascotes, a lua obesa que se agarrava ao céu, e o nosso amor. o nosso amor, que ocupava cada centímetro quadrado. as pessoas ficavam cada vez mais distantes, a anos-luz da nossa bolha que crescia e crescia e espremia-os lá fora. nós nos roubamos mutuamente do mundo.
nunca antes eu ousara abusar de todos os sentidos ao mesmo tempo. nunca antes eu vira/sentira tudo tão bonito. nunca antes eu fora tão feliz, meu amor. tu me destes coisas as quais eu não esquecerei, te prometo. foram as melhores horas que poderíamos ter tido, e tivemos. não suficientes, já que nos confessamos em sussurros suficiente ser nada menos que a vida inteira, mas eu te garanto que as mais incríveis que se fizeram possíveis.
queria poder guardar tudo que senti contigo num vidro, mon core, mas não posso. o que posso é guardá-las cuidadosamente na minha melhor gaveta. aquela que te falei que eu mesma fiz, lembra? com papel e madeira e memórias – só nossas.
por mais que eu escreva e escreva e fale e sussurre e grite, não me caberão em palavras o quanto te amo ou quão feliz tu me faz. não, querida, não briguei com elas mais uma vez, é só que, como já te disse, essas coisas tão tão grandes que tu me faz sentir não cabem em coisinhas tão tão pequenininhas que elas são.
ainda assim, insisto em dizer que te amo, meu grande amor. mais que qualquer coisa, mais que todas as coisas, mais do que 'amor' possa significar. tu estoura meu peito em dosagens desmedidas do teu amor, me afogando no melhor que eu poderia sentir.
te juro amor eterno, minha bruna. amor eterno.
creio que tu querias me devastar em felicidade, pois como se não bastasse, tu me destes a lua no estado mais lindo que eu já pudera ter visto. te retribuí com meus mascotes que alimento lá dentro desde muito pequena. tudo que sempre quiséramos dividir com alguém que o merecesse, pequena, e agora o temos. tu me tens, eu te tenho. e até o que nem pensávamos que pudéssemos ter, nos demos: o campo dos sonhos estourando, não cabendo em si por toda aquela multidão que éramos nós duas, a escuridão, as estrelas de cima, as estrelas debaixo, os mascotes, a lua obesa que se agarrava ao céu, e o nosso amor. o nosso amor, que ocupava cada centímetro quadrado. as pessoas ficavam cada vez mais distantes, a anos-luz da nossa bolha que crescia e crescia e espremia-os lá fora. nós nos roubamos mutuamente do mundo.
nunca antes eu ousara abusar de todos os sentidos ao mesmo tempo. nunca antes eu vira/sentira tudo tão bonito. nunca antes eu fora tão feliz, meu amor. tu me destes coisas as quais eu não esquecerei, te prometo. foram as melhores horas que poderíamos ter tido, e tivemos. não suficientes, já que nos confessamos em sussurros suficiente ser nada menos que a vida inteira, mas eu te garanto que as mais incríveis que se fizeram possíveis.
queria poder guardar tudo que senti contigo num vidro, mon core, mas não posso. o que posso é guardá-las cuidadosamente na minha melhor gaveta. aquela que te falei que eu mesma fiz, lembra? com papel e madeira e memórias – só nossas.
por mais que eu escreva e escreva e fale e sussurre e grite, não me caberão em palavras o quanto te amo ou quão feliz tu me faz. não, querida, não briguei com elas mais uma vez, é só que, como já te disse, essas coisas tão tão grandes que tu me faz sentir não cabem em coisinhas tão tão pequenininhas que elas são.
ainda assim, insisto em dizer que te amo, meu grande amor. mais que qualquer coisa, mais que todas as coisas, mais do que 'amor' possa significar. tu estoura meu peito em dosagens desmedidas do teu amor, me afogando no melhor que eu poderia sentir.
te juro amor eterno, minha bruna. amor eterno.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
gavetas entreabertas
tenho em mim uma grande, pesada e líquida bigorna. um peso devastador – hora insuportável, hora fraco, porém constante – que corre por minhas veias, que encharca meus ossos, que me embrulha o estômago. é denso, viscoso e cru, ainda que flamejante. um ardor que embebo e álcool e sufoco em nicotina, inutilmente.
não lembro por onde andei nos anos que antecederam o dia de hoje. há algumas horas abri os olhos pela primeira vez. fiquei cega durante incontáveis e angustiantes minutos. não há nada ao redor se não areia. não há ninguém além de mim. não tenho medo. não ainda. não tenho tempo. logo, eles chegam. devem ser três ou cinco; talvez cinqüenta ou cem. são mais altos que eu, mais fortes que eu, mais cruéis que eu. eles não têm cor ou sexo. gritam todos ao mesmo tempo palavras que não me fazem sentido algum. dizem-me que tenho um nome e muitos pecados pelos quais pagar. atam cordas nos meus pulsos e tornozelos. um por vez, me socam e molestam, depois, todos juntos. não grito. uma ou duas vezes, desmaio tamanha dor sinto. então, quando acordo, lá estão eles outra vez, esperando que eu me faça consciente e possa sofrer um pouco mais.
espero que parem, mantenho-me passiva com uma lembrança que não sei de onde vem ou por que a guardo. é um rosto nítido num corpo um tanto quanto desfocado. são olhos pequenos-estreitos que parecem ter estrelas – talvez uma constelação inteira – engavetados. a boca parece ser de uma maciez sem mensuras e a voz dela é tão sutil que me embriaga em arrepios, ainda que só me dê uma única frase: "eu vou te tirar daqui, Stella". Stella. pois então esse é meu nome. não entendo então o que faz com que esses que me violentam vomitem "Astrid" em grunhidos vulgares.
na terceira vez em que acordo dos desmaios já não há ninguém mais uma vez e começo a considerar a hipótese de um longo delírio. olho ao redor e não há sequer um grão de areia. o que vejo são tábuas de madeira no chão; uma mesa que parece ser do século passado, tal qual os demais – que são poucos – móveis do cômodo; e uma máquina de escrever sem pó sobre as teclas. há também uma cama com detalhes entalhados, e, eu teria me prendido a eles, não fosse a presença dela agarrando meu olhar. ela, a lembrança que me fez suportar, agora sentada em meio a lençóis revirados, me observando incógnita, ali, deitada na madeira fria. reconheci a voz que manteve-me viva não mais naquela única frase, e sim num doce "meu amor, outro pesadelo? volte pra cama agora. tudo está bem".
ouço as palavras saírem sem que as saiba dizer: "desculpe, querida. sim, outro pesadelo". deito ao lado dela e aconchego-me em abraços que me enlaçam. um lugar que sinto tão meu, tão, tão meu.
- eu te amo, Stella.
-eu te amo, Alice.
não lembro por onde andei nos anos que antecederam o dia de hoje. há algumas horas abri os olhos pela primeira vez. fiquei cega durante incontáveis e angustiantes minutos. não há nada ao redor se não areia. não há ninguém além de mim. não tenho medo. não ainda. não tenho tempo. logo, eles chegam. devem ser três ou cinco; talvez cinqüenta ou cem. são mais altos que eu, mais fortes que eu, mais cruéis que eu. eles não têm cor ou sexo. gritam todos ao mesmo tempo palavras que não me fazem sentido algum. dizem-me que tenho um nome e muitos pecados pelos quais pagar. atam cordas nos meus pulsos e tornozelos. um por vez, me socam e molestam, depois, todos juntos. não grito. uma ou duas vezes, desmaio tamanha dor sinto. então, quando acordo, lá estão eles outra vez, esperando que eu me faça consciente e possa sofrer um pouco mais.
espero que parem, mantenho-me passiva com uma lembrança que não sei de onde vem ou por que a guardo. é um rosto nítido num corpo um tanto quanto desfocado. são olhos pequenos-estreitos que parecem ter estrelas – talvez uma constelação inteira – engavetados. a boca parece ser de uma maciez sem mensuras e a voz dela é tão sutil que me embriaga em arrepios, ainda que só me dê uma única frase: "eu vou te tirar daqui, Stella". Stella. pois então esse é meu nome. não entendo então o que faz com que esses que me violentam vomitem "Astrid" em grunhidos vulgares.
na terceira vez em que acordo dos desmaios já não há ninguém mais uma vez e começo a considerar a hipótese de um longo delírio. olho ao redor e não há sequer um grão de areia. o que vejo são tábuas de madeira no chão; uma mesa que parece ser do século passado, tal qual os demais – que são poucos – móveis do cômodo; e uma máquina de escrever sem pó sobre as teclas. há também uma cama com detalhes entalhados, e, eu teria me prendido a eles, não fosse a presença dela agarrando meu olhar. ela, a lembrança que me fez suportar, agora sentada em meio a lençóis revirados, me observando incógnita, ali, deitada na madeira fria. reconheci a voz que manteve-me viva não mais naquela única frase, e sim num doce "meu amor, outro pesadelo? volte pra cama agora. tudo está bem".
ouço as palavras saírem sem que as saiba dizer: "desculpe, querida. sim, outro pesadelo". deito ao lado dela e aconchego-me em abraços que me enlaçam. um lugar que sinto tão meu, tão, tão meu.
- eu te amo, Stella.
-eu te amo, Alice.
primeiro bilhete de linhas rasgadas
alice, meu amor,
estou mudando. não, não, não vou sair da cidade ou coisa que o valha. que dizer, bem, talvez eu saia, mas não mudar de casa, talvez eu só queira mudar de ares. tá me entendendo? eu sei que sim, me desculpe. desculpe o tempo sem escrever, têm acontecido inúmeras coisas. contarei tudo quando puder enumerá-las sem encher os olhos de lágrimas em grossas gotas de saudades. não me esqueça, tá bem? prometo não enlouquecer ou me tornar um monstro. ou melhor, não um monstro pior do que esse que tu ama.
me espera.
te amarei para todo o resto da eternidade. nunca amarei outro alguém.
sempre tua, stella.
estou mudando. não, não, não vou sair da cidade ou coisa que o valha. que dizer, bem, talvez eu saia, mas não mudar de casa, talvez eu só queira mudar de ares. tá me entendendo? eu sei que sim, me desculpe. desculpe o tempo sem escrever, têm acontecido inúmeras coisas. contarei tudo quando puder enumerá-las sem encher os olhos de lágrimas em grossas gotas de saudades. não me esqueça, tá bem? prometo não enlouquecer ou me tornar um monstro. ou melhor, não um monstro pior do que esse que tu ama.
me espera.
te amarei para todo o resto da eternidade. nunca amarei outro alguém.
sempre tua, stella.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
um telegrama
alice,
destranque as janelas, meu amor, que essa noite não pedirei licença ao invadir teu quarto com meus cigarros entre os lábios e as mãos calando tua boca. não apavore-se, não tente gritar. deixarei ao alcance da sacada a corda que tenho amarrada na estrela que tu me destes e te levarei ao céu em segundos.
beijos curtos, que os longos te entrego quando a única luz que eu vir for a dos teus olhos.
sempre, sempre tua em teus amores,
stella.
destranque as janelas, meu amor, que essa noite não pedirei licença ao invadir teu quarto com meus cigarros entre os lábios e as mãos calando tua boca. não apavore-se, não tente gritar. deixarei ao alcance da sacada a corda que tenho amarrada na estrela que tu me destes e te levarei ao céu em segundos.
beijos curtos, que os longos te entrego quando a única luz que eu vir for a dos teus olhos.
sempre, sempre tua em teus amores,
stella.
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